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terça-feira, 28 de novembro de 2017

A Tempestade do Destino

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'

terça-feira, 25 de abril de 2017

Não sei como chamar a esta crónica

"Quando não estava no hospital o meu pai passava o tempo fechado no escritório, a olhar pelo microscópio, a estudar e a ler. Jantava connosco quase sempre em silêncio, comida diferente da nossa, em que mal tocava, e desaparecia de novo escadas acima. Às vezes lá falava um bocadinho, em regra para nos mostrar a nossa ignorância. Não me lembro de o ver fazer uma festa a um filho, não me lembro de uma palavra terna. A minha mãe também não era especialmente demonstrativa. Tudo isto se passava numa atmosfera de austeridade que, na minha ideia, roçava a indiferença. As calorias de amor vinham das avós e das tias. E isto criou entre a gente, os filhos, uma cumplicidade quase muda. O meu grande amigo José Cardoso Pires, que conheceu alguns dos meus irmãos, dizia
– Vocês têm uma ligação muito forte
e claro que tínhamos. Tanto que praticamente não necessitávamos de palavras. O João para mim
– Eu sei sempre o que tu estás a pensar e tu sabes sempre o que eu 
estou a pensar
e, que me lembre, nunca houve conflitos entre nós. Nem grandes confidências, aliás. Cada qual vivia no seu mundo privado, dois em cada quarto, no do João e meu, por exemplo, ele sentado a estudar e eu de barriga para cima na cama, a contemplar o tecto. Aquilo que para mais olhei durante a infância e parte da adolescência foi o tecto. Depois o papel, a escrever. Uma ocasião pus em maiúsculas na parede
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
o meu pai entrou por acaso, olhou, viu, desapareceu no corredor, voltou com uma esponja e um copo de água, limpou a frase e sumiu-se de novo. Recordo-me do olhar do João para mim, do meu olhar para ele. Depois, com o tempo, isto foi mudando um bocado. O meu pai começou a falar à mesa, parecia que movido pela necessidade de demonstrar que era mais inteligente e culto do que nós. Não era. Julgo que tinha consciência disso e nos invejava. Uma tarde em que lhe entrei no escritório, eu entretanto grande, claro, mostrou-me um livro do João. Isto numa época em que eu já era o António Lobo Antunes, e perguntou-me:
– Viste a merda que o teu irmão escreveu?
respondi-lhe
– Tomara você fazer isso
e ficou de boca aberta, capaz de matar-me. Mas o que eu lhe disse era verdade e ele, no fundo de si, sabia-o. Ainda acrescentei, antes de sair
– E não o chateie com as suas críticas.
Não chateou. Não disse nada, enquanto eu sentia pena de nós por continuarmos a tentar agradar-lhe. Quem não quer agradar ao Pai? Julgo que, no fundo, se orgulhava da gente. Que não passava de um garoto mimado pelos meus avós. Que não suportava perder. E, connosco, perdeu. Mesmo assim gostávamos dele. Era honesto, 
corajoso
(qualidade importantíssima para todos)
leal. Mas faltava-lhe chama
(o que ele chamava faísca)
faltava-lhe imaginação, faltava-lhe espírito criador. É curioso não me custar nada dizer isto. Creio, não, tenho a certeza que o amávamos por ser nosso pai. Amava-o mas nunca o admirei. Tenho o seu apelido, venho dele. E os cromossomas ainda que o não queiramos, gritam. A sua morte custou-me. Não sei se foi feliz ou infeliz. Acho que nem uma coisa nem outra. Era um homem intelectualmente ambicioso
(ambições materiais nunca lhe encontrei nenhuma)
mas sem capacidade para as realizar. Nós, os filhos, devemos-lhe o que, no fundo, ele mais queria que tivéssemos: o apreço pelas coisas belas. Mas dificultou a nossa relação com os outros, nele competitiva e muitas vezes violenta, e tornou-nos, para sempre, criaturas sedentas de amor, com o coração a pingar súplicas de afecto. Na morte do João houve uma coisa que me consolou um bocadinho: saí da Basílica da Estrela de mão dada com o meu irmão Nuno. Nunca tinha dado a mão a um homem, mas não era a um homem que estava a dar a mão. Era ao meu Nuno, era ao sangue dele que é exactamente o mesmo que o meu. Penso que a partir de agora me é mais fácil exprimir o que sinto: foi tão agradável, mano, achar-me acompanhado, sem necessidade de escrever na parede je suis trop seul vivant dans cette chambre. Que bom não ser só um."

António Lobo Antunes

(Crónica publicada na VISÃO 1258, de 13 de abril de 2017)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Amor

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"Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem."  
MEC-  Último Volume

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Segredo dos Casais

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Um casal tem de ser vaidoso como casal. A noção antiga é de duas metades que se encontram. Não é da panela à procura de tampa. Desde quando é que a tampa é tão importante como a panela, para não falar na quantidade de coisas, como pratos, que fazem de tampas sem perda de qualidade?
O casal com sorte é uma sobrevivência. Não é tanto «eu não vivo sem ti» como «eu, sem ti, morria». Ou já tinha morrido. Ou já não quereria viver.
Um casal é uma confissão de insuficiências. Como as mulheres são provavelmente melhores do que os homens, há um desequilíbrio que urge enfrentar o mais depressa possível. A grande compositora e cantora Melanie (Safka-Schekeryk), apesar de dezenas de canções maravilhosas desde ao anos 60 até agora, teve o único grande êxito com «Brand New Key» no Natal de 1971, o ano em que a obra-prima Songs Of Love And Hate de Leonard Cohen, com arranjos geniais de Paul Buckmaster, roubou esse ano inteiro, com razão e alma.
Melanie, mulher, tinha um par de patins novinhos em folha (a panela, 90% da questão) mas o rapaz com que engraçava tinha uma chave igualmente novinha. Nas palavras imortais que mostram a relação de forças entre os seres femininos e masculinos:
«I’ve got a brand new pair of rollerskates/ You’ve got a brand new key/ I think we should get together/ And try them on to see»
O segredo dos casais é o fracasso das independências: é a interdependência, humilhante mas verdadeira, de precisar de quem se ama.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (6 Fev 2016)'
(Título original do texto: 'O Casal Socorrido')

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Someday he'll come along, the man I love
And he'll be big and strong, the man I love
And when he comes my way
I'll do my best to make him stay

She'll look at him and smile,
He'll understand
And in a little while he'll take her hand
And though it seems absurd
I know we both won't say a word

Maybe you will meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good news day

You'll build a little home, just meant for two
From which I'll never roam, who would, would you?
And so all else above she's waiting for
The man she loves

Maybe I will meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure you'll meet him one day
Maybe Tuesday will be your good news day

We'll build a little home, just meant for two
From which you'll never roam, who would, would you?
And so all else above I'm waiting for
The man she loves (I love)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma

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Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sábios ensinamentos

"Para uma família ser feliz, é necessário haver sedução. Os filhos têm de ser charmosos para encantar os pais, os pais têm de se esforçar para educarem convincentemente os filhos. E marido e mulher, caso queiram permanecer juntos, têm de passar a vida inteira a engatar-se. O mal da família é a facilidade. É pensar que aquele amor já é assunto arrumado."

Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume".

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ipsis verbis

A maior herança: uma crónica de José Luís Peixoto
 
Ainda me lembro do cheiro do nosso carro e do ar quente a entrar pela janela, do pôr do sol em Siena, das gaufres parisienses e dos passeios no jardins do Luxemburgo, da sensação de ter a roupa colada ao corpo quando conhecemos Macau, dos verões em Espanha, de estarmos sempre a cantar, dos piqueniques em lugares mágicos e das sandwiches de frango da Mãe.
Agradeço aos meus queridos Pais por calcorrearem este mundo e o outro com duas crianças atreladas.  Viva as nossas viagens!
Oxalá possa deixar aos meus filhos viagens tão maravilhosas e igualmente inesquecíveis...
Bom dia!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


 
"Fiz ontem as contas e foram mais de trinta mil os dias em que adormecemos e acordámos juntos, na cama onde agora te escrevo e de onde espero sair para ir de novo até ti. Trinta mil dias a olhar-te dormir, a saber o frio ou o calor do teu corpo, a perceber o que te doía por dentro, a amar cada ruga a mais que ia aparecendo. Trinta mil dias de eu e tu, desta casa que um dia dissemos que seria a nossa (que será de uma casa que nos conhece tão bem quando já aqui não estivermos para a ocupar?), das dificuldades e dos anseios, dos nossos meninos a correr pelo corredor, da saudade de nos sabermos sempre a caminho de sermos só nós. Trinta mil dias em que tudo mudou e nada nos mudou, das tuas lágrimas tão bonitas e tão tristes, das poucas vezes em que a vida nos obrigou a separar (e bastava uma tarde longe de ti para nem a casa nem a vida continuarem iguais). Trinta mil dias, minha velha resmungona e adorável. Eu e tu e o mundo, e todos os velhos que um dia conhecemos já se foram com a velhice. Nós ainda aqui estamos, trinta mil dias depois, juntos como sempre. Juntos para sempre. Trinta mil dias em que desaprendi tanta coisa, meu amor. Menos a amar-te."

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in "Prometo falhar", de Pedro Chagas Freitas,

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Já ninguém morre de amor



 

"Já ninguém morre de amor, eu uma vez andei lá perto, estive mesmo quase, era um tempo de humores bem sacudidos, depressões sincopadas, bem graves, minha querida, mas afinal não morri, como se vê, ah, não, passava o tempo a ouvir deus e música de jazz, emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, ah, sim, pela noite dentro, minha querida. a gente sopra e não atina, há um aperto no coração, uma tensão no clarinete e tão desgraçado o que senti, mas realmente, mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não, eu nunca tive queda para kamikaze, é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida, saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber, e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim. há ritmos na rua que vêm de casa em casa, ao acender das luzes, uma aqui, outra ali. mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha no lusco-fusco da canção parar à minha casa, o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente, minha querida, toda a gente do bairro, e então murmurarei, a ver fugir a escala do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim."
Vasco Graça Moura in Antologia dos Sessenta Anos

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Filhos


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"Os filhos  são como as águias, ensinarás a voar  mas não voarão o teu vôo. Ensinarás  a sonhar, mas não sonharão  os teus sonhos. Ensinarás  a viver, mas não viverão  a tua vida. Mas, em cada voo,  em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos". - Madre  Teresa di Calcutta

sábado, 27 de setembro de 2014

Vive o instante que passa.

"Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim."
Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente IV'

A minha querida e sábia Mãe diz-nos muitas vezes isto por outras palavras...
Bom dia, alegria!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Bonito!


"Não há nada que substitua
O sol que me dás pela manhã"
 
________ Poeta Anónimo do Séc. XIV
 
 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Bem dito!

"Hipócrita: indivíduo que, ao professar virtudes que não respeita, assegura as vantagens de parecer ser aquilo que despreza." - Ambrose Bierce

Bom dia!

sábado, 24 de maio de 2014


Jesse: Alright, I have an admittedly insane idea, but if I don't ask you this it's just, uh, you know, it's gonna haunt me the rest of my life
Celine: What?
Jesse: Um... I want to keep talking to you, y'know. I have no idea what your situation is, but, uh, but I feel like we have some kind of, uh, connection. Right?
Celine: Yeah, me too.
Jesse: Yeah, right, well, great. So listen, so here's the deal. This is what we should do. You should get off the train with me here in Vienna, and come check out the capital.
Celine: What?
Jesse: Come on. It'll be fun. Come on.
Celine: What would we do?
Jesse: Umm, I don't know. All I know is I have to catch an Austrian Airlines flight tomorrow morning at 9:30 and I don't really have enough money for a hotel, so I was just going to walk around, and it would be a lot more fun if you came with me. And if I turn out to be some kind of psycho, you know, you just get on the next train.
Jesse: Alright, alright. Think of it like this: jump ahead, ten, twenty years, okay, and you're married. Only your marriage doesn't have that same energy that it used to have, y'know. You start to blame your husband. You start to think about all those guys you've met in your life and what might have happened if you'd picked up with one of them, right? Well, I'm one of those guys. That's me y'know, so think of this as time travel, from then, to now, to find out what you're missing out on. See, what this really could be is a gigantic favor to both you and your future husband to find out that you're not missing out on anything. I'm just as big a loser as he is, totally unmotivated, totally boring, and, uh, you made the right choice, and you're really happy.
Celine: Let me get my bag.

Before sunrise.

terça-feira, 13 de maio de 2014




"Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem."
Último Volume, Miguel Esteves Cardoso

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O que Distingue um Amigo Verdadeiro



Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.
 
Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.
 
Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.
Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser.
 
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'