sábado, 1 de abril de 2017

Aniversário

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos  
Eu era feliz e ninguém estava morto.  
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos  
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião.  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos  
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma  
De ser inteligente para entre a família  
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor da casa  
Pondo grelado nas paredes.  
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,  
É terem morrido todos  
E estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio.  
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega  
A mesa posta com mais lugares, com mais copos  
O aparador com muitas coisas – doces, frutas,  
As tias velhas, os primos diferentes, tudo por minha causa  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.
Pára, meu coração!  
Não penses! deixa o pensar na cabeça!  
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!  
Hoje já não faço anos. Duro.  
Somam-se-me dias.  
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!  
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..."
 
– Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, excertos

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